Marcus Nox, Brecht, Maiakóvski, Eduardo Alves da Costa e cia.

463px-OccupyMind-transparent-croppedIntertexto da Greve, Marcus Nox

Primeiro pararam de pagar os vigilantes
Mas não me importei com isso
Eu não era vigilante

Em seguida cortaram algumas bolsas
Mas não me importei com isso
Eu também não era bolsista

Depois cancelaram alguns contratos
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou contratado

Depois cortaram salários de professores
Mas como recebo meu salário
Também não me importei

Agora estão privatizando minha Universidade
Mas já é tarde.

Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.


Bertold Brecht

Primeiro levaram os negros,
Mas não me importei com isso.
Eu não era negro.

Em seguida levaram alguns operários,
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário.

Depois prenderam os miseráveis,
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável.

Depois agarraram uns desempregados,
Mas como tenho meu emprego
Também não me importei.

Agora estão me levando,
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém,
Ninguém se importa comigo.


No caminho, com Maiakóvski, Eduardo Alves da Costa

Assim como a criança
humildemente afaga
a imagem do herói,
assim me aproximo de ti, Maiakósvki.
Não importa o que me possa acontecer
por andar ombro a ombro
com um poeta soviético.
Lendo teus versos,
aprendi a ter coragem.

Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho e nossa casa,
rouba-nos a luz e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.

Nos dias que correm
a ninguém é dado
repousar a cabeça
alheia ao terror.
Os humildes baixam a cerviz:
e nós, que não temos pacto algum
com os senhores do mundo,
por temor nos calamos.
No silêncio de meu quarto
a ousadia me afogueia as faces
e eu fantasio um levante;
mas amanhã,
diante do juiz,
talvez meus lábios
calem a verdade
como um foco de germes
capaz de me destruir.

Olho ao redor
e o que vejo
e acabo por repetir
são mentiras.
Mal sabe a criança dizer mãe
e a propaganda lhe destrói a consciência.
A mim, quase me arrastam
pela gola do paletó
à porta do templo
e me pedem que aguarde
até que a Democracia
se digne aparecer no balcão.
Mas eu sei,
porque não estou amedrontado
a ponto de cegar, que ela tem uma espada
a lhe espetar as costelas
e o riso que nos mostra
é uma tênue cortina
lançada sobre os arsenais.

Vamos ao campo
e não os vemos ao nosso lado,
no plantio.
Mas no tempo da colheita
lá estão
e acabam por nos roubar
até o último grão de trigo.
Dizem-nos que de nós emana o poder
mas sempre o temos contra nós.
Dizem-nos que é preciso
defender nossos lares,
mas se nos rebelamos contra a opressão
é sobre nós que marcham os soldados.

E por temor eu me calo.
Por temor, aceito a condição
de falso democrata
e rotulo meus gestos
com a palavra liberdade,
procurando, num sorriso,
esconder minha dor
diante de meus superiores.
Mas dentro de mim,
com a potência de um milhão de vozes,
o coração grita – MENTIRA!


Imagem adaptada de https://commons.wikimedia.org/wiki/File:OccupyMind-transparent.png

Fontes:

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